terça-feira, 28 de junho de 2016

FILHOS E MORADORES ILUSTRES - Pedro Catão

Romance da Minha Vida - Pedro Catão


ANTELÓQUIO
          Ao transpor o marco miliário anual da 74ª. Viagem em derredor do Sol, na minha já longa jornada terrena, embora obscura e cheia de decepções e desencantos, lembrei-me de registrar algo dela como o meu precário testamento da vida, semelhante ao célebre conhecido humorista (Rabelais) assim resumido: - “Nada possuo e devo muito: – o resto deixo para os pobres”.
            Já que não posso ter consolação do trágico Esquilo, quando exclamou em idêntica situação: – “Morro; mas a minha obra e o meu exemplo sobrevivem.” O que equivale a dizer:
            – Morri para viver mais!
             Ademais, não se trata de uma obra doutrinária, ou mesmo de um livro de arte propriamente dito, senão de rápidas anotações de um canhenho autobiográfico. Sem aspiração aos lauréis ou a convicções – uma simples narrativa prestada como um mero depoimento pessoal.
            Efetivamente, assim se deve pautar, a nosso ver, esta filantrópica literatura introspectiva, ou automemorial, malgrado ao que com justeza lhe objeta o genial Padre Antônio Vieira:
            – Ninguém há tão reto juiz de si próprio que, ou diga o que é, ou seja, o que diz.
           Entronca-se ela no místico autor na “Cidade de Deus”, o glorioso Santo Agostinho desenvolvendo-se em Goethe e J. J. Rousseau e entre nós com Paulo Setúbal na sua já laureada obra póstuma “Confiteor”, e no primoroso Humberto de Campos fazendo, de seus revezes de lutador, desajudada fonte perene de ensinamentos e consolação para os que o lêem e bendizem-no.
            Por outro lado considero o natalício – mormente após o cinqüentenário como em verdade ele o é – um afastamento do berço, onde tudo é riso e avanço ao túmulo, onde tudo é misterioso e sombrio, e por isso encaro-no sempre com melancolia  e sem festa, e tão somente pelo muito que nele sofri e o pouco que aprendi, assim o catalogo!
            O Douto escritor platino José Ingeniéros divide a idade humana em três estágios: – A idade da espécie, que vai da primeira infância ao raciocínio desenvolvido; a idade social ou adulta, e a idade individual da mentalidade experiente do ancião que por fim exausta tende regressar à primeira.
            Mais incisivo e simbólico é ainda o interessante apólogo do imaginoso publicista pátrio, cujo nome de pronto não me recordo, e que também de memória passo a recompor.
           Quando o Onipotente saiu a distribuir as idades pelas espécies animadas, elegeu o homem, como animal superior o rei da Criação, e deu-lhe a longevidade de cinqüenta anos para gozar o seu reinado!
           Depois se dirigiu ao burro e concitando-o a reconhecer àquele soberano, deu-lhe quarenta anos para assim obedecê-lo e servi-lo, carregando-o e às suas coisas. O asno então reclamou tão longo o ciclo de servidão – e pediu se retirasse ao menos um decênio no que foi imediatamente atendido. Em seguida encaminhou-se o Criador ao cão e exortando-o ainda àquela vassalagem ao homem, a quem deveria fielmente defender e por sentido ao seu lar e seus bens, deu-lhe quarenta anos de existência, que o cão também achou pesado, e exorou abatimento de um decênio sendo deferido. Enfim chegou Deus ao mono, recomendando-lhe igualmente sujeição ao homem, a quem deveria agradar e divertir durante quarenta anos de vida que lhe concedia, e que também arrazoadamente implorou subtração de dez anos. O homem então solicitou lhe fossem outorgados aqueles decênios que os outros haviam abdicado, sendo-lhe isso lhe concedido.
            É por isso que o homem só é realmente pleno e integral no gozo da vida até o cinqüentenário; dos cinqüenta aos sessenta é burro de carga; dos sessenta aos setenta é cão que bota sentido à casa, às filhas moças e aos bens; e de setenta em diante e símio, cuja hilaridade diverte!..
            Eu, como se vê, já atingira esta última, faze, a do macaco!
            Acordei, portanto tardiamente… já bem longe e esquecido dos sonhos, de que bem canta o poeta:
                        “Morre um afeto, outro nasce,
                        Passa um desejo, outro vem;
                        Depois de um sonho, outro sonho,
                       “De tantos que a vida tem”.
            Meus afetos nunca morreram, mas os meus desejos também jamais passaram, nem se cumpriram! Não houve sonhos, ou melhor – só houve sonhos, mas sonhos tristonhos!
 ANTECEDENTES 1868  -  1888
            Nasci nesta tão malograda quão pouco amada cidade de Baturité, antiga Vila de Monte Mor o Novo da América, Estado do Ceará (EUB) no prédio urbano, no. 86 atual, (ex-18) da Rua 15 de Novembro (então do Comércio) às 10 horas e dezoito minutos antemeridianas, do domingo 26 de Abril de 1868, dia consagrado pelo Credo Católico a São Pedro de Rates, mártir, 1º. Arcebispo de Praga.
            Baturité é topograficamente situado no sopé da vertente oriental da Serra que lhe dá o nome, e que significa serra por excelência (da corruptela de ibi terra, tira alta, serra, e o superlativo eté, segundo o Des. Paulino Nogueira), sobre um pequeno platô, circundado por dois regatos algo perenes, Aracoiaba e Putiú e pelas cordilheiras e colinas da citada serra, tendo assim o aspecto pitoresco e risonho de um Oasis.
            Lembra vagamente com seus coqueirais, laranjais e mogunbeiras, e suas ermidas e casaria brancas, as praias de Olinda, ou a baía de Vitória!
            Em 1864, um século após a instalação da Vila, vinte e três anos após a criação da Comarca e seis depois da elevação à cidade meu pai chegou a Baturité como Juiz de Direito, vindo do Icó, donde já tinha vindo aquele mister, de Pernambuco, seu Estado natal.
            Cerca de três anos depois de sua chegada aqui meu genitor enviuvou e ligou-se a minha mãe também viúva sem filhos, nascendo eu em 1868, como já se disse, e como primeiro rebento da segunda geração de cada um, e de ambos.
            Nota-se a priori o predomínio do algarismo oito e seus múltiplos no fato do meu nascimento, tal qual o meu nordestino – Estado que têm nesse número quase sempre as suas principais crises climatéricas, justificando o rifão já nele popularizado:
            – No Ceará é oito, ou oitenta e oito…
            Conto precisamente hoje (26 de abril de 1942) setenta e quatro anos de existência mundial, ou seja, 888 meses (74×12). Convertendo para dias, e atento às alterações do calendário, inclusive 17 bissextos, somam 27.023, ou seja, 648.672 horas, donde há deduzir a fração do dia inicial (10 horas e 18 minutos); ao todo 3.891.314 minutos.
            Mas como durmo calculadamente oito horas diárias, este tempo fica desfalcado de um terço, pouco mais de 24 anos, e assim reduzido a 50 anos, si bem que seja aquela talvez a melhor porção da minha existência!  
            Segundo horóscopo astrológico que, há anos, a gentileza de um amigo mandou levantar em centro exotérico, o céu da minha natividade astral tinha o Sol no signo de Taurus, a Lua e Venus em Gemini e o planeta Saturno, como governante e ascendente, em Sagitário, sendo este planeta em nada propício, acrescentam os entendidos, aos que nele se iniciam neste vele de lágrimas.
            Do mesmo passo não eram também lisonjeiras as antevisões deduzidas das condições fisiológicas do meu natal: meu Pai, que começava comigo o primeiro rebento dos três da segunda prole, tinha àquela época 53 anos, pois nascera em 1815, e minha mãe 38, porquanto era do fim de 1830.
            Sou filho, portanto, da árvore já idosa e trabalhada, ou esgotada.
            Aparentemente, no entanto, fui uma criança forte e sadia e de peso regular, não obstante não ter educação física cuidada, e durante minha infância apenas me abateu o sarampo.
            Minha cor morena e pálida e meu temperamento acentuadamente linfático, nervoso e bilioso, fizeram-me taciturno, pouco expansivo e tímido, algo irresoluto, o que tornou falhas a maioria dos meus tentames, apesar de certa ascendência espontânea sobre meus coevos
            Era meu supra dito genitor louro de olhos azuis, estatura acima de mediana e como magistrado, exercia as funções de Juiz de Direito da Comarca a cujo múnus, além da família, exclusivamente se devotava.
            Tinha sido um moço ardoroso democrata tomando parte na revolução pernambucana de 1848, chamada Rebelião Praieira, com Nunes Machado e Pedro Ivo, e sendo obrigado por isso, e com fracasso dela, a se foragir na Europa, morando nove anos em Paris, até 1857, quando alcançando anistia regressou ao Brasil, ingressando na magistratura.
            Já sendo formado em Direito pela Academia de Olinda, seu berço natal, naquele interregno, de seu exílio, conquistou mais o diploma de bacharel em ciências fisícas e matemáticas e outro em medicina, profissões de que pouco uso fez, tendo, contudo formulado um preparado farmacêutico para reumatismo (pílulas caninana) e um tratado em autógrafo sobre o cálculo infinitesimal, conforme ouvi em família.
            E foram tais, parecem, as desilusões que sofreu naquela empreitada cívica, que arrefeceu quase de todo em política, se dedicando à progênie – seis filhos do primeiro leito, e eu e duas meninas do segundo, principalmente a mim único varão, a quem passava horas inteiras bordando preleções empíricas, abeberadas talvez em Flamarion, para me incutir com  aquelas fantasiosas noções elementares de ciência matemática astronômica.
            Era igualmente um espírito construtor e progressista, assim se revelando desde a Academia, onde muito se esforçou pelo incremento da Biblioteca deste estabelecimento, merecendo por isso encômios de Clóvis Beviláqua na sua “História da Faculdade de Direito do Recife.”
             No Icó, cidade que florescia por esse tempo com a láurea de princesa dos Sertões, realizou com outros a edificação de um Teatro tomando por modelo o Santa Izabel do Recife.
            Aqui, logo que chegou foi distinguido com o cargo de Presidente Honorário de uma associação literária da terra, intitulada Phoenix dramática e consagrada a este gênero.
            Minhas irmãs unilaterais secundavam carinhosamente meu Pai na minha educação infantil, encaminhando-a para a piedade cristã, ensinando-me preces e hinos, xácaras e lendas, como o de Santa Iria, Santa Genoveva e outras.
            Minha Mãe era como eu, de cor morena, olhos castanhos escuros e cabelos pretos e crespos e, sertaneja inculta e nordestina cearense, era extremada até o sacrifício na afeição maternal, sem, contudo, abdicar de usar do castigo corporal, que ela, como Gabriel de Tarde, julgava indispensável na educação humana, e o sábio Salomão já preconizava nos provérbios bíblicos (Cap.19 v.18 e 29 v.15).
            Seu pai, dela, e meu avô materno, uma vez única, quase de relance passaram por nossa casa, de viagem emigrando de Quixeramobim, onde residia, para  Fortaleza, na seca de 1877, quando faleceu.
            Sei igualmente que se imiscuíra no levante confederado de 1824, sendo preso na Paraíba com o Major Luis Rodrigues Chaves, quando seguiam como emissários dos republicanos cearenses para os de Pernambuco.
            Pouco conheço, conforme se colige, da nossa genealogia, o que entre nós é quase generalizado. Sei, no entanto, pelo que colhi no lar, que entre meus antepassados houve um batavo de proporções agigantadas, que viera para o Brasil ao tempo de Nassau, e aqui ficara jungido por interesses pecuniários, após a evacuação daquele valoroso povo do nosso torrão.              
            Ainda hoje em nossa família atavicamente surdem indivíduos “arranha céus”, como repercussão daquele avoengo, que era extremado republicano (impulsionado talvez pela aversão aos vencedores) e de que, seguindo a tradição, o meu avô paterno se envolveu nas sedições de 1817 e 1824.
            Foi a esse tempo que, de acordo com o uso de cognome patriota de guerra, os companheiros apelidaram-no de Catão pela sua austeridade, e que por fim absolveu o nome patronímico da família.
            Ultrapassados os seis anos de idade fui matriculado numa escola pública primária das duas que existiam antanho na cidade para o sexo masculino afora duas para o feminino.
            A aula funcionava em uma sala, cujo quadrilátero correspondia a duas portas das quatro de frente do prédio baixo, e ainda hoje obsoleto, da Rua Sete de Setembro atualmente numero 60, sendo as demais dependências ocupadas pelo professor e sua família. O teto em telha var, sem forro, e o pavimento de tijolo de ladrilho, com paredes laterais branqueadas a cal, e uma barra de alcatrão no sopé. Apinhavam-se nela em fila bancos toscos de madeira dura e áspera e alguns quadros negros aos flancos. Em um destes havia um cântaro de barro com um caneco enferrujado, para a dessedentação dos alunos.
            Uma mesa de cedro sobre pequeno estrado com uma escrivaninha ao centro, uma fixa de madeira para senha dos que saiam sob licença e uma palmatória, que, como da praxe, era enfeitada nas festas escolares pelos tímidos.
            Como adorno um quadro místico do Calvário, ladeado por duas bandeiras cruzadas: uma pintada de verde e amarelo, (aberta), e outra de encarnado e azul, (cerrada), dos partidos – grego e asturiano –, respectivamente, que se emulavam aos sábados em argumentação predeterminada, triunfando o que reunisse o maior número de quinais sobre o adversário, rodeando vitoriosa a escola manifestação com o estandarte desfraldado, cantando o hino do trabalho, enquanto seus contrários ficavam detidos ao lado de seu pendão fechado.
            Este sistema suprira em parte as cruezas dos anteriores argumentos e sabatinas a bolos rigorosos de palmatória, que tanto amedrontava aos timoratos, alem das malquerenças e vinditas seqüentes.
Foi ainda ele transmudado por outro, a reclamos dos meninos aplicados, que eram prejudicados pelos legionários desidiosos que não estudavam: O Professor habilmente transformou os partidos pelas denominações de forte e fraco, sendo sempre forte o que ganhava ou mesmo empatava com seu páreo.
Quando transpus o limiar daquele recinto senti-me atônito ao lado da mucama, que me conduzia com a guia aonde vinha a minha individualização escrita por meu pai para a respectiva matricula. O Professor recebeu-a, fez-me uma carícia e começou a transladá-la para um livro, enquanto aguardávamos de pé.
A meninada olhava-me de soslaio, ora gentil ora ridente, como quando me via de merenda, que lhe podia dar, e ora zombeteira e hostil, como quase sempre, quando nada tinha a lhe ofertar, até que terminada a inscrição, a mucama foi despedida e eu incorporado, tomando assento amedrontado em um dos bancos, que me foi indicado.
Foi assim, pode-se dizer o primeiro contato do mundo exterior que tive. E, não obstante, tão depressa no seu convívio assimilei a sua desenvoltura, que logo depois fui por eles mesmos alcunhado de Malasarte.
O labor escolar era antanho nos dias uteis (salvo às quintas feiras) no horário de dez da manhã às duas da tarde, sem qualquer trégua ou recreio (Hoje se diria das dez à quatorze do dia): Era ele saudado ou iniciado ou saudado por um hino e finalizado por outro, sendo ainda admitido estudar tabuada e o silabário cantarolando melopéias corais, sob fundamento do cântico auxiliar a memória e facilitar a decoração; Das dez às onze era consagrado o tempo  à caligrafia, das onze às doze  à aritmética ou contas, em  frente aos quadros negros, o resto   às lições decoradas de catecismo e gramática e a leitura em compêndios de ensino moral e de história da pátria, sendo às quartas feiras um curso de letra manuscrita.
Não se cogitava de educação física ou higiênica, limitando-se esta última apenas a exposição das mãos abertas em palma ao Professor para prová-las asseadas e de unhas aparadas.
Havia vestígios do antigo regime de ensino mútuo de decuriões ou monitores, coadjuvante cognominado de método de Lencastre, decretado pela velha lei de 1827, que estabelecia os castigos corporais, concretizados em bolos ou pancadas de férula, prisões, segregações, posições e atitudes humilhantes e ridículas etc.
Além das férias anuais, em dezembro, e dos domingos e santificados, comemorava-se apenas o Sete de Setembro, data da Independência Nacional.
O trabalho apesar de menos lisonjeado, era mais cultuado e praticado!
(ESPAÇO EM REFERENCIA A PAGINA 18 FALTANTE DO TRABALHO MANUSCRITO)
…moço competente e igualmente zeloso, porém tuberculoso, tendo falecido com pouco tempo de exercício sendo sua vaga ocupada por seu irmão Juvêncio da Costa Lobo, também competente e compenetrado, mas afetado da mesma moléstia.
Embora tanta precariedade e contratempos, aproveitei e progredi, e meu pai exultou, quando com três semanas de freqüência escolar apenas, deletrei com correção os letreiros ou dísticos dos estabelecimentos das vias urbanas.
E foi talvez a última emoção que lhe proporcionei, porquanto insidiosa congestão cerebral logo empós o arrebatou ao túmulo, em 12 de janeiro de 1875.
Não compreendi de súbito a profundeza do golpe que me fulminara, mas ao sentir, noites depois do vácuo tenebroso da minha orfandade, prorrompi em soluços lancinantes acompanhado das minhas irmãzinhas e de minha Mãe, que debulhada em pranto embalde procurava nos confortar.
Foi aquela em verdade, a noite do meu infortúnio, que ainda hoje se prolonga intérmina e caliginosa.
Para maior desventura sobreveio-o ao Ceará a mais solapadora crise dos seus anais, que o assolou devastadoramente e o flagelou três longos anos.
Minha Mãe, viúva pobre, lutou heroicamente para nos manter, auxiliada pelos meus dois cunhados casados com irmãs do primeiro leito, que sucessivamente se sucederam em nossa tutela, e cuja honradez e amor ao trabalho e ao dever muito me exemplificou.
Passada aquela tremenda provação, que tudo anormalisou, completei o curso primário, única instrução que recebi por intermédio de terceiro, alem de seis meses de aula particular dos Professores José Remígio de Freitas e Cícero Pordeus, com que anos depois (em 1892) fiz preparatório no Liceu Cearense. Fui como se vê perfeito autodidata.
Assim alfabetizado entrei também para a oficina do semanário local (“O Baturité”) que era redigido pelo meu cunhado Amaro Cavalcante, então Professor de latim e Advogado, a guisa de aprender aquela arte gráfica, mas com o intuito de melhorar as condições de um jornaleco manuscrito (O Papagaio) que mantinha com outros camaradas para discutir com o “Diabinho”, de Francisco Ayres de Miranda, (que morreu Capitão de engenheiro do Exército Nacional,) a moda do que se dava com os homens e frações partidárias da terra.
Com efeito, o jornaleco transformou-se logo para letra de forma já com novo título “O Torpedo” e depois “Zuadelo”. Tínhamos ainda um grupo dramático anexo, que encenava os dramalhões de capa e espada em voga (“A Cruz do Juramento, “Antônio O Pirata” e outros) que uma associação de mancebos da cidade elevava o proscênio, e eu resumia de memória e transmudava para o nosso repertório.
Depois fundamos uma congregação cultural, sob égide de “Instrutora Juvenil”, que homenageava as datas pátrias e apreciava em júri os seus vultos e fatos históricos e até aos mundiais. Com o movimento e questões sociais. Lembro-me que foi bastante calorosa a discussão sobre o feminismo ou sufragismo, então em foco na Inglaterra, com as exacerbações espetaculosas de Luísa Michel e outras paladinas. Eu liderava uma corrente…            
Publicado em Filhos de Baturité, Informes | Marcado com Pedro Catão | por Maninho.

   Mario Mendes Junior            

segunda-feira, 27 de junho de 2016

FILHOS E MORADORES ILUSTRES - India Maria de Oliveira

Primeira Professora de Baturité - India Maria de Oliveira


Rua Profª. Índia Maria de Oliveira
Exemplo curioso de integração e congraçamento das classes sociais que participavam da vida de Baturité apareceu nos registros históricos da cidade, quando, por volta de 1764, no dia 16 de maio, alistou o Sr. Ouvidor 37 meninos e 36 meninas em idade escolar e os entregou ao escrivão da vila, Cosme Paes Maciel de Carvalho, para os instruir. Este escrivão Maciel, por sua vez, confiou a tarefa á índia Maria de Oliveira que, além das primeiras letras, também os ensinava a fazer rendas e a cozer. Há, ainda, a curiosa indicação de que “duas pequenas de 7 anos poderiam ir à escola dos meninos, pagando os respectivos pais aos professores a contribuição marcada pelo Diretório”. 

(Renato Braga, Dicionário Histórico e Geográfico do Ceará, Fortaleza, Editora Universitária do Ceará, 1967, vol. I, p.65)

A primeira professora de Baturité, foi a índia Maria de Oliveira.
(Franklin Távora e seu tempo. P.28 – Cláudio Aguiar).

sábado, 25 de junho de 2016

FEZ OU FAZ PARTE - PERNAMBUQUINHO - GUARAMIRANGA




Você sabe onde fica o Riacho das Cobras em Guaramiranga? Sabia que foi lá que surgiu a primeira feira livre do maciço da Serra de Guaramiranga e que o Riacho das Cobras, é hoje, a nascente do Rio Pacoti. Este lugar é também o distrito mais antigo da região.

Já pertenceu a Batuité, Guaramiranga, Pacoti e o mais curioso, é que pela Lei nº 6.932 de 18/12/1963 este distrito passou a ser município separando-se de Guaramiranga, pela divisão administrativa vigente à época, isto significava que poderia instalar sua própria prefeitura, mas isso nunca aconteceu.

Já sabe? Este lugar se chama Pernambuquinho, e por que este nome? Isto é o que veremos neste artigo que faz parte do livro que será lançado pelo Dr. Marcélio Farias, historiador de Guaramiranga e que terá muitos assuntos inéditos e interessantes sobre fatos e propriedades das 50 famílias que estavam em Guaramiranga na passagem dos anos de 1800 para o de 1900 e que terá o provável título de “Raízes de Guaramiranga”.

A HISTÓRIA

Pernambuquinho! Quem diria que este povoado já teve seus tempos de glória, poucos imaginavam isto, ou sequer sabiam que teve outro nome “Riacho das Cobras”.
Dizem que o lugar foi fundado por missionários italianos que chegaram a Pernambuquinho e se impressionaram com os canaviais que à época tinha as várias nuances de verde e com os engenhos de rapadura que impulsionavam a juntamente como café à economia da região.
Nos anos iniciais do século XIX, quando na formação dos primeiros sítios produtores de cana-de-açúcar, tinham no lugar como destaques, o sítio Botafogo, da família Queiroz que se transformou em Mendonça por casamento, do sítio Lagoa do capitão Correia Lima, também um autêntico Queiroz, do sítio Beija-flor, Brejinho, Canaã (Canadá) e Deserto das famílias Mota/Vieira/Abreu, todas entrançadas entre si e provenientes da região de Maranguape, do sítio Califórnia, da família Menezes e Brito, posteriormente surgiram mais sítios com produção de cana-de-açúcar, como Vazantes, Santarém, Cana-sêca, Limoeiro, Guanabara, Poço Escuro e outros.

No decorrer da segunda metade da década de 70 do século XIX, chegaram ao Pacoti, oriundos do Recife, José da Cunha Medina e sua esposa, Maria da Glória, acompanhados de um irmão pequeno dela, além da sua sogra e um irmão dele, Medina. Tinham vindo ao Maciço no intuito de tratar o infante, que sofria de tuberculose e que, por indicações médicas em relação aos benefícios que o ar serrano poderia lhe proporcionar, escolheram (desconhece-se o motivo, já que em Pernambuco existem algumas elevações com microclima semelhantes) a Serra de Baturité. A tentativa de nada valeu: o garoto acabou falecendo. Mas os Medina ficaram e ajudaram a construir o perfil do Riacho das Cobras, localidade que escolheram para se estabelecer (o irmão de Medina optou por morar na Forquilha, distante um quilômetro).

José da Cunha teve vários filhos, sua filha mais velha, Virgínia Laura da Cunha Medina (1880-1922), casou-se com João Brasiliano de Mendonça e foi morar no sítio Caga-fogo, depois Botafogo. Propriedade bem extensa, boa produtora de café (seiscentas sacas num ano ruim), nela nasce o Rio Pacoti, numa grota chamada Escondido.

O lugar tomou grande impulso e passou a chamar-se de Pernambuquinho, isto se deu pelo fato dos sitiantes quando se deslocavam ao arraial Riacho das Cobras, o que faziam costumeiramente com a finalidade de ver as novidades trazidas de Pernambuco, chegadas via Vale do Jaguaribe, e mais tarde, via Fortaleza, sempre diziam “vamos ao Pernambuquinho” pois ali servia de recanto para trocas e vendas, onde os comerciantes e sitiantes do lugar, como os Epifânios (Ferreira-Lima), os Medinas, os Mendonças, os Marques e muitos outros, traziam, compravam e vendiam volumosas quantidades de mercadorias de fora. Era ali onde se primeiro tinha contato com as novidades vindas de Olinda e Recife, a maioria já originada da Europa.

Posteriormente tornou-se local de uma grande feira livre, quando em 1874, José da Cunha Medina construiu vários box para alugar aos comerciantes e também abriu sua loja de comércio que prosperou e logo o Pai Medina, o patriarca da família passou a ser protetor do lugar e por seu incentivo oficialmente o Riacho das Cobras passou a ser conhecido como Pernambuquinho.

Nesta época os gêneros estrangeiros eram enxada, picareta, machado, fechadura, urinol, prato, copo e garrafa de vidro, tecido fino, tecido de lã, papel da Holanda, goma arábica (tipo de cola ou adesivo), caparrosa (tipo de tinta), etc., posteriormente vieram os gêneros como: querosene, sabão,e algumas dragas afins (remédios), etc., o luxo ainda não havia atravessado o oceano, somente com a construção da estrada de ferro de Baturité, com a instalação em 1882 da estação de Baturité e com a riqueza trazidas pela produção de café foi que foi possível que objetos de requintes e ostentação (cristais, consolos, móveis, etc.) puderam subir a serra, a esta altura, a feira de Pernambuquinho já estava sendo paulatinamente esvaziada, com a sua transferência para a de Pendência (Pacoti), onde perdura até hoje.

CRONOLOGIA

1856 – O Tem-se noticia do lugar onde residia a figura folclórica de Dana Maria Italiana – seu sítio ficava na estrada que liga Pernambuquinho ao lugarejo Forquilha, se estendia pela estrada indo até o Sítio Botija - senhora dinâmica, incansável, que o administrava, tipo mulher-homem, ativa e destemida que escarranchada ora numa sela ora numa cangalha, ia a Baturité, de dia ou de noite, armada de revólver, para negociar os produtos do seu sítio.

Tem-se também noticias do sítio Brejo das Pedras que pertencia a Manuel Vieira da Silva.

1870 - A reconstrução da igreja, agora em alvenaria, a antiga era no alto (morro) e de taipa, porém já com a invocação de Senhor do Bonfim, teve início com a criação da comissão edificadora do templo de Senhor do Bonfim, faziam parte desta comissão: Francisco Alves Cavalcante, Joaquim Alves Lima, Ildefonso Bezerra Lima e Carlos Antônio da Paixão.

1873 - Chega de Olinda para vigariar a capela de Senhor do Bonfim, o Padre José Raimundo Batista de Oliveira, dizem que era primo do Padre Cícero, logo comprou o sítio Vazante, construiu um sobrado onde ensinava latim.

1874 - Quando Pernambuquinho estava no auge de crescimento, apareceu um bando de ciganos, e, quando lias as mãos de populares, lhe foi perguntado de como seria o meio mais fácil de ganhar dinheiro – então disse o cigano – muito fácil, basta conseguir uma parte de qualquer dos santos existentes na capela e fazer como amuleto.
O que foi ensinado foi desastroso, pois à noite entraram as escondidas na igreja e roubaram partes da imagem de Santo Antônio e de Jesus Crucificado, ao amanhecer ao saberem dos acontecidos os ciganos foram embora e não se descobriram os culpados ficando tudo impune, apenas a capelinha foi abandonada e com os anos desapareceu, dando lugar a atual. Dizem que a decadência do lugar se deu devido o castigo divino deste sacrilégio.

1887 - Notícias da existência uma feira livre, inclusive registrada em relatos deixados pelo historiador Pedro Catão, conforme se verifica a página número 175 da Revista do Instituto do Ceara - Volume LII.

1877 - A administração da província realizada pelo conselheiro Estelita, o povoado é beneficiado com verbas de socorro público para a seca, sendo construído o muro do cemitério.

1878 - Pelo ato provincial de 04-06-1878, é criado o distrito de Pernambuquinho e anexado ao município de Baturité.

1890 - A criação legal do distrito de Pernambuquinho se deu pela através do decreto nº 55, que elevou o povoado de Conceição a categoria de Vila, onde seus limites incluíam a área abrangente do seu distrito de paz e do distrito de Pernambuquinho.

1900 - A capela foi reconstruída em, e hoje em sua lateral direita foi afixada a nostálgica e irônica inscrição “O povo de Pernambuquinho do século XIX, felicita os pósteros do século XX”.

1924 – Nasce em Pernambuquinho seu filho mais ilustre, o grande engenheiro eletrônico e pesquisador brasileiro, fundador e primeiro diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Fernando de Mendonça, filho de José Brasiliano de Mendonça e neto de João Brasiliano de Mendonça.

1934 - Nasce em Pernambuquinho outro ilustre filho, Juarez Barroso – [*19.10.1934 – †18.08.1976], filho de José Carlos Ferreira e Clélia Albuquerque Ferreira. Apesar de se ter formado em Ciências Jurídicas e Sociais, cedo ingressou no radialismo.
Deixou as narrativas de Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal (1969), ganhador do Prêmio José Lins do Rêgo, do ano anterior, e Joaquinho Gato (1976), também deixou vários romances e contos.

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