domingo, 15 de maio de 2022

Sitio São Luis - Pacoti

Patrimônio do ciclo áureo do café no Ceará, sua bela e imponente casa com estilo colonial, rodeada de majestosos arcos e colunas, abriga um precioso acervo acumulado desde o início do século XIX. As matas preservadas na propriedade, também guardam riquezas: espécies únicas da fauna e da flora do bioma de mata atlântica com resquícios do amazônico, e antigos cafezais sombreados. No Sítio São Luís é possível vivenciar e conhecer a história da Serra de Baturité, além das memórias de famílias que aqui habitaram. Historicamente, o Sítio São Luís teve por primeiro proprietário o Cel. João Pereira Castelo Branco, baturiteense, filho de Manuel Felipe Castelo Branco e Izabel Gomes da Silveira, irmã do Tenente Gonçalo Gomes da Silveira, de grande atuação no meio político, econômico e social da região nas primeiras décadas do século XIX. Em 1869 João Pereira adquiriu o São Luiz pelo valor de 13:000$00 por compra feita a um parente seu, o capitão José Alexandre Castelo Branco, que por sua vez havia comprado o mesmo sítio em 1858, com o antigo nome de Canna-Brava, do comerciante português Luiz Ribeiro da Cunha de que já falamos. Segundo a antiga escritura, o Canna-Brava situava-se “na Serra de Santa Anna com todas as benfeitorias assim como casas, plantações, engenho de ferro, caldeiras, duas juntas de bois, moendas, e as partes das terras compradas dos herdeiros dos finados Mathias Rodrigues d’Andrade e sua mulher”. O capitão José Alexandre já havia anexado à propriedade que ele passou a denominar São Luís, os sítios confinantes Santana e Castelo. João Pereira era casado com dona Maria de Oliveira Castelo Branco, com quem teve dez filhos: Josefa, Izabel, Luiza, Virgínia, João Pereira Filho, José Pereira, Ana, Amélia, Maria e Manoel Felipe. A filha Luíza era casada com Joaquim Correia Sombra, de Maranguape, onde moravam, sendo o casarão da Família Sombra muito semelhante em sua arquitetura ao da Serra. Hoje ainda possui a fachada preservada e nele funciona a Agência da Caixa Econômica de Maranguape. Provavelmente o vetusto casarão do Sítio São Luís procedeu da reforma da casa grande primitiva nas últimas décadas do século XIX. A estrutura impressiona pelo porte arrojado de suas belas colunas (30 ao todo), admirável pela estrutura sólida de seus arcos de quinas abauladas, toda erguida em tijolo e barro, feitos ali mesmo, com argila escura e queimados em fogo artesanal. Mas a crise econômica em decorrência da queda na produção do café também minou o patrimônio da família Castelo Branco, que já havia contraído elevadíssima dívida. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, quando faleceu o Cel. João Pereira em 1º de dezembro de 1900, seu inventário somou aproximadamente 25 contos de réis em bens, porém as dívidas somavam mais de 77 contos. Automaticamente o Sítio São Luís passou a pertencer ao principal credor: a casa exportadora dos Boris Frères. Em 1930 os irmãos franceses venderam o Sítio para o jovem Dr. Luiz Cícero Sampaio, ex-prefeito de Pacoti, casado com Carmem Nepomuceno e filho do também ex-prefeito Cel. José Cícero Sampaio (Zeca Sampaio) e de dona Maria Pimenta Sampaio (dona Mará). O casarão do Sítio São Luís sobrevive sob os cuidados da família que descende dos Sampaio Nepomuceno e constitui hoje o melhor exemplo de arquitetura colonial da Serra de Baturité. Não tem sido fácil mantê-lo, com sua estrutura secular e de grande porte, contudo os esforços particulares têm mantido suas características originais. Sua bela imagem aparece em todas as propagandas turísticas que o celebram como maior exemplo de nosso patrimônio arquitetônico, mas nenhum apoio financeiro ou mesmo cultural chega até ele... Passo então a palavra à amiga e anfitriã Cláudia Maria Mattos Brito de Góes, atual proprietária do Sítio São Luís, que o descreve melhor que ninguém: Em meio ao intenso verde da exuberante vegetação que cobre a Serra de Baturité, a uma altitude de 679m acima do nível do mar (cota da soleira da porta da frente), em Pacoti, encontra-se uma majestosa construção de imensas colunas brancas que se fecham em arcos simétricos, como uma fortaleza. As paredes altas são características dos antigos casarões da época colonial que usavam tochas de fogo para iluminar o seu interior. Todas as portas e janelas são de cedro maciço, retirado da própria mata que ainda existe no seu entorno. A água pura e cristalina que chega gelada em suas torneiras e vem por gravidade de uma nascente, localizada no alto do morro atrás da casa. Até alguns anos atrás esse encanamento era original, feito com bambu. A enorme cozinha ainda preserva uma antiga central de aquecimento de água, com uma serpentina que passa por dentro do fogão a lenha. Para viabilizar o início da obra, os mestres projetaram a construção de uma barragem nas águas do Rio Pacoti, que demarca os limites em uma das extremas do sítio. Através de uma porta d’água de puro bronze fincada em um dos lados da parede do pequeno reservatório, sai um canal de irrigação que circunda toda a área em volta da casa e segue, dividindo-se em vários sub-canais, percorrendo toda a extensão do vale à frente do casarão. Durante muitas décadas esse canal, conhecido como o Canal dos Holandeses, impulsionou a roda d’água do antigo engenho de cana, ao lado da casa grande. O Sítio São Luís tem hoje uma área remanescente de 210 ha, com mais 40 ha de mata preservada e alguns núcleos de mata nativa totalmente intacta. Conserva ainda antigos roçados de café, alguns com mais de cem anos de idade. O velho casarão já foi cenário de dois longas-metragens. Em julho de 1998, foi o principal cenário do projeto cinematográfico de Florinda Bolkan: “Eu Não Conhecia Tururu”. Em junho de 2007, serviu de locação para o primeiro longa-metragem de época rodado e produzido no Ceará: “Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito”, de Glauber Filho e Joe Pimentel. A imagem do casarão foi assim preservada e imortalizada pela maravilhosa ARTE do CINEMA. O Sítio São Luís mantém a tradição de resgatar a memória de seus antepassados, integrantes de algumas das mais tradicionais famílias da Serra, preservando costumes, fatos e feitos que recordam os momentos alegres e felizes por eles vividos. São exemplos de luta, de lealdade, de união e de coragem, de vidas simples mas de ricas virtudes. Essas histórias, sempre recontadas entre a família, são assim preservadas e repassadas às novas gerações. Em 2015, o Sítio São Luís passou a integrar a “Rota Verde do Café”, tornando-se o “Instituto Sítio São Luís”, entidade sociocultural e turística. Fonte: Texto adaptado do Livro “Pacoti, História & Memória”, de Levi Jucá (Editora Premius, 2014)