domingo, 9 de dezembro de 2012

Sesmeiro - Virgílio Nunes Maia


Sesmeiro

 

Para Francisco Carvalho

 

Sesmeiro fui das largas, longas léguas
medidas pelos passos dos meus bois.

Mal começado o século XVIII,
cheguei
à fina areia do Retiro Grande
e fui
seguindo pelo Jaguaribe acima,
pela ribeira,
do Aracati a Passagem de Pedras,
depois de Russas,
até o povo de São João de Varges,
e com mulher e filhos me instalei.

Em dias de agosto de mil e setecentos e quê
por despacho do Capitão-Mor
me foram dadas,
com os olhos d’água todos, por acréscimo,
as terras do Riacho dos Porcos,
dito Amoré na língua do gentio,


pa. suas criaçõins e pa. Sy
e seus herdeiros accendentes e desendentes,
as quais terras lhe dou e concedo,
com todas as agoas
campos testadas
e Logradouro
e mais úteis q nela houveram...,


qual essas terras donos não houvessem.

 

Então
– e disso alguém já se queixara a El-Rey –,
era o palmo de gato desbravar
o que em infinitas braças foi pensado.


Mas nas terras do Amoré
meus gados acomodei,
os vacuns e os cavalares,
bem logo fazendo erguer
casa-grande com curral,
plantando naquelas glebas,
vendo que frutificava,
toda a minha geração
que pela vida afora há de levar
olhares e feições dos meus Açores.


Tive notícia quando,
à barra do Sitiá, adusta e bela,
se elevaram os baldrames poderosos
de uma altiva capela dedicada
à Senhora da Conceição,
padroeira também de Portugal.
E o bronze do seu sino propagava
intermináveis ecos da fé,
no verão da paisagem desolada.


Em vão testemunhei e bradei contra
as matanças inúteis perpetradas
pelo Regimento do Jaguaribe
– pobre espada cevada em carne de índio.


Ouvi dizer que o Latinista Maia,
clerigo in menoribus,
declamava A Eneida
no mormaço da tardes ocres
de um então nascente Tabuleiro d'Areia,
quando
ensinava latim aos seus alunos,
enquanto,
médico e boticário,
fazia erguer igrejas e fazendas,
pagando piedosas promessas
a uma quase olvidada
Nossa Senhora das Brotas,
mandando vir imagem
da cidade da Bahia,
posto fosse Capitão de Cavalaria.


Tanger, tangi boiadas incontáveis
pelos caminhos que não existiam,
através de caatingas que estremavam
ao Ocidente com sete-estrelo
ou nessas terras chãs dos tabuleiros,
e épsilon de Escorpião traçava o rumo.


As mercadorias vindas por mar
se transportavam em carros-de-bois,
que gemiam e chiavam tristemente,
do Aracati ao Icó.
Depois, em lombo de animal,
por ínvias veredas,
às barrancas do São Francisco,
inçadas de oxítonos topônimos tapuios,
donde iam dar
às catas de ouro das Minas Gerais.


Ao Piauí se iam buscar bois
correndo a Estrada Nova das Boiadas,
atravessando os campos de Uriá,
os formosos partidos de mimoso
de Santo Antônio do Quixeramobim
e o boqueirão do Poti,
topando-se, aqui, acolá,
com coloridas tropas de ciganos,
de destino e furor nunca sabidos.


Nas janelas do oitão,
nos parapeitos dos alpendres,
se riscavam,
a tosco lápis de carpinteiro,
marcas de gado
e se escreviam,
em tímidas quadras,
os balbucios
de umas primeiras gestas barbatãs,
inspiradas por espirituosas
talagadas de porto e de aguardente.

 

Foi quando um dia por aqui chegaram
esmaecidos rumores
de fato acontecido
numa das Capitanias de Baixo,
onde um moço foi
despedaçado a pata de cavalo
para gáudio da Corte
e caluda geral dos pensamentos.


Mais, havia os chocalhos de Alcáçovas,
de imbatível sonoridade,
as bonitas moedas bem cunhadas
em prata na distante Cuiabá,
que só por segura encomenda
tiniam por estas bandas.


Vi quando chegaram
as galinhas d’angola,
os porquinhos-da-índia,
rebatizados de preás-do-reino,
avivando
o sonho fazendeiro dos meninos
e alucinando
o faro astuto das cadelas prenhas.


Soube, por ouvir dizer,
dos pavorosos crimes praticados
nas disputas de estremas ou de alcovas,
dentre as famílias ditas poderosas, ricas de gerações,
mas espiritualmente tão estéreis.


Sesmeiro fui e mais relembraria,
dessas eras,
que no final, de data, me tocaram
tão só as versejadas verdes léguas,
medidas pelo metro do depois.

 

Virgílio Nunes Maia nasceu em Limoeiro do Norte, Ceará, no ano de1954. Advogado formado pela UFC é autor, dentre outros livros e cordéis, de Palimpsesto (1992), Estandartes das tribos de Israel (2001) e Timbre (2002). No campo etnográfico, escreveu Álbum-iniciação à heráldica das marcas de ferrar gado (1993).

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